Ficha Técnica

Título: Fahrenheit 451

Autor(a): Ray Bradbury;

Gênero: Distopia, Drama, Clássico;

Editora: Biblioteca Azul;

Páginas: 215;

Ano: 2012;

Sinopse: Escrito após o término da Segunda Guerra Mundial, em 1953, Fahrenheit 451, de Ray Bradubury, revolucionou a literatura com um texto que condena não só a opressão anti-intelectual nazista, mas principalmente o cenário dos anos 1950, revelando sua apreensão numa sociedade opressiva e comandada pelo autoritarismo do mundo pós-guerra. Agora, o título de Bradbury, que morreu recentemente, em 6 de junho de 2012, ganhou nova edição pela Biblioteca Azul, selo de alta literatura e clássicos da Globo Livros, e atualização para a nova ortografia. A singularidade da obra de Bradbury, se comparada a outras distopias, como Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, ou 1984, de George Orwell, é perceber uma forma muito mais sutil de totalitarismo, uma que não se liga somente aos regimes que tomaram conta da Europa em meados do século passado.
Trata-se da “indústria cultural, a sociedade de consumo e seu corolário ético – a moral do senso comum”, segundo as palavras do jornalista Manuel da Costa Pinto, que assina o prefácio da obra. Graças a esta percepção, Fahrenheit 451 continua uma narrativa atual, alvo de estudos e reflexões constantes. O livro descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos. Fahrenheit 451 tornou-se um clássico não só na literatura, mas também no cinema. Em 1966, o diretor François Truffaut adaptou o livro e lançou o filme de mesmo nome estrelado por Oskar Werner e Julie Christie.



Olá, pessoas!



Hoje vim aqui trazer pra vocês mais uma resenha. Mas não é qualquer crítica, nem muito menos qualquer livro. E sim o grande clássico de Ray Bradbury, Fahrenheit 451.

Este livro facilmente entraria na lista das distopias que mais fizeram sucesso e alarde por todo o mundo, assim como Admirável Mundo Novo, 1984, Revolução dos Bichos, Laranja Mecânica e tantos outros.

Por terem uma crítica bastante positiva e serem muito reconhecidos, acredito que seja normal, quem ainda não leu, se sentir um tanto quanto receoso, ou até mesmo, intimidado. Foi assim com Admirável Mundo Novo, e agora a experiência parece se repetir com Fahrenheit 451. 

Pois é, foi assim. Minha leitura começou extremamente cautelosa, porque só ouvia maravilhas deste livro. E olhem, confesso pra vocês, que este livro facilmente entraria na lista dos meus melhores livros de todos os tempos! E claro, entrou pra lista dos melhores do ano.

Acredito que já falei pra vocês o poder que os clássicos possuem para todos nós. Parece até que existe um mérito maior por ser um clássico. E sempre ficamos impressionados com a capacidade desses títulos viverem na mente de toda nossa sociedade. E com certeza, ficamos maravilhados por criaturas aparentemente normais escreverem obras primas que os imortalizam e que apresentam um futuro distópico, que se formos parar pra analisar, facilmente chegaríamos neste ponto.

Acredito que as distopias tem o poder de nos fazer abrir os olhos quanto ao mundo em que vivemos. E por isso é tão incômodo ler livros deste tipo. Porque nos damos conta de que vivíamos alienados, na cega ignorância incrustada na nossa sociedade.

A grande questão que nos fazemos é: como esses autores foram capazes de ver além de sua época? Como eles foram capazes de criar algo totalmente fiel à condição humana? E até ouso questionar, como eles foram capazes de prever?

E nós chegamos a conclusão de que se eles, dezenas de anos atrás, conseguiram enxergar além, imagina os autores de hoje em dia? Será que eles revolucionarão o mundo da Literatura e farão com que suas obras sobrevivam durante o tempo?

Infelizmente nós não prevemos o futuro, o que torna essa descoberta ainda mais emocionante. Mas com certeza, nossos filhos e netos testemunharão isto. E nos dirão, se ainda estivermos vivos, quais deles tiveram essa capacidade.

Mas bem, vamos falar um pouco sobre a narrativa deste livro que me encantou tanto. Em meados de 1950, num governo totalitário, frente a uma futura guerra mundial, vive Guy Montag. Ele é um bombeiro, um de uma legião de outros, que sai por aí, incendiando casas, edifícios e afins por toda a cidade. Eles incendeiam casas repletas de livros dentro. 

Isso aí. Livros. Já imaginou viver num mundo assim? Já imaginou viver num mundo onde ter um livro te condenaria para o resto de sua vida? Já imaginou que para alimentar teu conhecimento e sabedoria, você teria que escondê-lo?

Lendo este livro, você começa a trazer pro nosso mundo, e vê a forma como os livros são vistos hoje em dia. No Brasil, somente 1,8 livros são consumidos por ano pela população. Os livros são  pouco valorizados, e quando nossa sociedade direciona e fomenta sua atenção para os eletroeletrônicos é quase impossível se ver livre disto.

Na narrativa, um dos intelectuais conta para Montag como foi a tomada do poder ali naquela cidade. Conta para ele que ninguém foi de contra ao governo imposto. Os próprios intelectuais não deram bola, deixaram acontecer, subestimaram a argúcia do governo. E quando os livros começaram a ser proibidos e queimados, eles não puderam fazer mais nada. 

É uma ditadura do saber, do conhecimento. Porque quando as pessoas pouco pensam e pouco sabem, maior é o motor de destruição que se gera no mundo. Nesse caso não é algo tão extremo, isso só acontece em uma cidade. 

E quando as pessoas não mais conversam, não mais interagem, não mais pensam, as TVs e todos os outros meios de comunicação tornam-se caminhos para a mais absoluta alienação. Eles se tornam meios que mantêm a população aprisionada naquela mesma mesmice de sempre.

Minha experiência com esse livro não foi pior do que a que tive com Admirável Mundo Novo, mas foi meu favorito. Acredito que tenha gostado mais, obviamente por causa da proibição dos livros e do saber. 

É agoniante acompanhar Montag durante seu ofício. E vemos em Clarissa, a alma de todos os leitores que ainda tentam sobreviver a uma ditadura dessas. Nos vemos nessa adorável garota e que facilmente conquistará seu coração. Ela entrou pra minha lista dos melhores personagens já inventados num livro.

É encantador e aterrorizante ao mesmo tempo ver Clarissa levantar questionamentos no mínimo bem simples e sem importância, mas que só por questionar e querer saber o porquê, acaba chamando atenção para si mesma e para sua família.

Montag encontra Clarissa na volta para casa, e ela lhe tira da hipnose da alienação facilmente. Ela lhe pergunta por que as pessoas não mais conversam entre si, por que elas não mais perguntam as outras como estão. Por que as pessoas não mais veem a beleza de um nascer/pôr do sol, por que elas não se importam mais com o amor, com o saber?

É chocante e bastante incômodo saber que algo assim possa vir a existir algum dia. Eu não me surpreendo com mais nada, e só por proferi isso, acabo muitas vezes sendo surpreendida novamente.

Tente imaginar um mundo onde o saber é proibido. Onde a superficialidade, a futilidade e a alienação imperam. Um mundo onde as pequenas coisas não mais seriam vistas e apreciadas. Onde os poetas, os escritores, os professores, todos aqueles profissionais que eram designados para o conhecimento fossem extirpados de nossa sociedade. Tente imaginar que o amor, a amizade e todos os outros sentimentos seriam enclausurados e censurados de todos nós. Conseguiu imaginar? É impossível não é? Mas a gente sabe que o ser humano é uma criatura altamente perigosa e destrutiva, tudo o que toca, vira cinza em suas mãos.

Nós só esperamos que uma sociedade assim não seja um dia implantada. Esse é nosso principal desejo quando nos deparamos com leituras assim. Porque por mais que seja ficção e distopia, nós temos plena ciência de que o contexto que o autor se inspirou pra fazer aquele livro é lógico e simplesmente faz sentido. Que poderiam facilmente instalar uma ditadura dessas em nosso mundo. 

E é a partir dos questionamentos de Clarissa, que Montag abre seus olhos e sua mente, e passa a enxergar toda a sujeira no mundo em que vive. Passa a ver o horror que é seu trabalho. Sofre junto com as vítimas que possuem livros escondidos nas paredes e no chão de suas casas. Vítimas essas que não suportam mais viver num mundo assim. Que se suicidam e morrem junto de seus livros, instrumentos riquíssimos de saber.

Daí, Montag se afasta de seu trabalho e passa a alimentar ainda mais questões que antes lhe passavam despercebidas. E cai na realidade, quando um belo dia, fica sabendo por sua esposa, Mildred, que Clarissa morreu e toda sua família sumiu dali logo após sua morte. 

E ainda tem mais. Guy recebe a visita nada menos aterrorizante do que seu chefe, que tenta lhe convencer a voltar à ativa. Que já passou por aquilo antes, e que já viu aquilo acontecer com tantos outros. E que espera que seu amigo volte logo para o serviço. Que já ficou doente daquele jeito e que curou tudo aquilo, pegando em livros e tentando lê-los e entendê-los, mas que não tirou nenhum ensinamento deles. Só balela.

Mildred, sua esposa, é o triste retrato de uma população cega de conhecimento e profundidade. Que se apoia e respira através da televisão e do rádio, que são instrumentos de domínio do governo instituído ali. 

Montag passa a esconder diversos livros na sua casa, e sua esposa cansada daquilo, o entrega para os bombeiros. E quem vai queimar sua casa junto com os livros é seu chefe, que escarnece de sua cara e lhe ameaça de morte. 

Com o estopim da guerra, Montag vive nos trilhos da antiga estação ferroviária da cidade, junto com diversos intelectuais, que guardam na memória, livros. Porque o único lugar aparentemente seguro do governo é a mente. E é lá que essas pessoas guardam e eternizam essas obras primas. 

E após a guerra, com a cidade silenciada e horrorizada, eles voltam a povoar a mente dessas pessoas com diversas obras literárias e assim abrem os olhos da população. Acredito que esse foi um dos finais mais épicos e emocionantes que já li na minha vida. Muito lindo!

Dei cinco estrelas para o livro e mais cinco para a edição linda da Biblioteca Azul, selo da Editora Globo para os Grandes Clássicos da Literatura Mundial. Eles nunca deixam a desejar neste quesito.


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